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João da Cruz e Sousa (Florianópolis - 1861 - 1898) ( o Cisne Negro ou Dante Negro )
 



Nasceu em Santa Catarina, no ano de 1861 e faleceu em Minas Gerais, em 1898. Apesar de ser filho de negros escravos, teve uma excelente
educação, falava francês, latim e grego. Foi nomeado promotor em Laguna, SC, mas não assumiu seu posto, devido a preconceitos raciais.

Em 1886, mudou-se para o Rio de Janeiro, trabalhando como arquivista da Central do Brasil e secretário e ponto de uma companhia
dramática. Em 1885, publicou um volume intitulado
Tropos e Fantasias, em colaboração com Virgílio Várzea, com quem já tinha
dirigido um jornal abolicionista, o Tribuna Popular. Em 1893, lançou
Missal e Broquéis.

O poeta teve quatro filhos; destes, morreram dois. Sua mulher enlouqueceu; além disso, a família tinha uma péssima situação econômica.
Todos esses acontecimentos afetaram profundamente a vida desse artista, que morreu tuberculoso em 1898.

CARACTERÍSTICAS:

Sua poesia carrega-se de impulsos pessoais e dos sofrimentos ocasionados pela miséria, pelo desprezo e por sua condição racial.
Sua poesia era a sua vida porque, através dela, podia levantar-se na escala social, beneficiando-se do seu engenho e ombrear-se
com os brancos que lhe admiravam o gênio. Dois assuntos predominaram em sua obra:

a) a penetração no seu íntimo, desvendando um mundo de amargura, tanto mais comovente quanto era real o sentido de solidão
que sentia, negro numa terra de escravocratas. Seu mundo interior é selvagem e sombrio;

b) a visão das coisas, procurando uma significação para o mundo, onde via a miséria e a desgraça, a injustiça e a dor.
Um mundo exterior que equivalia ao seu mundo interior, uma projeção apenas do seu íntimo.

Seu verso delira em sons e cores, altamente dramático, poucas vezes obscuro, mas sempre místico, extraterreno, quase surrealista,
cheio de visões que o torturavam e magoavam intensamente.

O poeta canta o estigma de sua raça e se deixa seduzir pelas formas brancas. O poema “Antífona” expressa a obsessão e o fascínio pelas cores alvas.
A poesia reflete a consciência obcecada do poeta mediante a fusão de todas as sensações: cor, som, cheiro, tato e paladar. Sua comunicação com o leitor
culto é extraordinária, porque tem máxima capacidade de expressão para os mistérios da vida, antes através da música e símbolos que da
ordenação lógica do pensamento.
Dentro do Simbolismo, sua obra significa tanto quanto a de qualquer poeta nacional ou estrangeiro por sua pungente irmanação com o sofrimento.
Produziu uma poesia que procura expressar o elemento transcendente, vago, nebuloso da vida.

Há três momentos na poesia de Cruz e Sousa
:

O primeiro correspondente aos livros Missal e Broquéis, nos quais o poeta, deixando antever a crise existencial latente que iria explodir mais tarde,
embala-se num sensualismo espiritual ou platônico (época do seu noivado com Gavita), mas já de mistura com temas trágicos, próprios da condição
humana.

CARNAL E MÍSTICO
“Pelas regiões tenuíssimas da bruma
vagam as Virgens e as Estrelas raras...
Como que o leve aroma das searas
todo o horizonte em derredor perfuma.

Numa evaporação de branca espuma
vão diluindo as perspectivas claras...
Com brilhos crus e fúlgidos de tiaras
as Estrelas apagam-se uma a uma.

Então, na treva, em místicas dormências,
desfila, com sidéreas latescências,
das Virgens o sonâmbulo cortejo...

Ó Formas vagas, nebulosidades!
Essência das eternas virgindades!
Ó intensas quimeras do Desejo...”


O segundo momento (1896), corresponde aos livros Evocações (poesia em prosa) e Faróis (em verso), quando predominam a revolta e o desespero,
agravados pela morte do pai e a loucura da esposa.

A tragédia existencial ou metafísica, que se iniciara anteriormente, toma corpo e se instala definitiva. Os temas agora giram em torno da morte, dos soluços e
lamentos, da solidão, do tédio, da humilhação.

Nesta fase acentua-se, também, a sedução do poeta pelos seres marginais à sociedade. Os loucos, os rotos, os vadios, os miseráveis, os suicidas
exercem um certo fascínio sobre o poeta. Esta tematização do elemento marginal pode ser explicada pelo viés do Simbolismo, movimento de
fundo romântico, ligado à face obscura e maldita da sociedade, quanto pelo viés pessoal do poeta em virtude de sua condição de “emparedado” pela cor e
pela condição social humilde. A seguir comprovamos essa interpretação:


 

LITANIA DOS POBRES

“Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
e varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
das culpas da Natureza.

Ó pobres! Soluços feitos
dos pecados imperfeitos!

Arrancadas amarguras
do fundo das sepulturas.

Imagens dos deletérios,
imponderáveis mistérios.

Bandeiras rotas, sem nome,
das barricadas da fome.

Bandeiras estraçalhadas
das sangrentas barricadas.

Fantasmas vãos, sibilinos
da caverna dos Destinos!

Ó pobres! o vosso bando
é tremendo, é formidando!

Ele já marcha crescendo,
o vosso bando tremendo… (...)

 

O terceiro momento reflete resignação e fé, representado pela obra Últimos Sonetos, publicados em 1905. A revolta e o desespero cedem lugar a um
período de resignação e fé, da sublimação das misérias humanas e apresenta o espírito de renúncia conquistado pelo poeta.
O tom de confiança absoluta na salvação pelo exercício da “vida obscura” e pelo percurso da “via dolorosa” está presente nos sonetos a seguir,
pertencentes à última fase da poesia de Cruz e Sousa.

SORRISO INTERIOR

“O ser que é ser e que jamais vacila
nas guerras imortais entra sem susto,
leva consigo este brasão augusto
do grande amor, da nobre fé tranquila.

Os abismos carnais da triste argila
ele os vence sem ânsias e sem custo...
fica sereno, num sorriso justo,
enquanto tudo em derredor oscila.

Ondas interiores de grandeza
dão-lhe essa glória em frente à Natureza,
esse esplendor, todo esse largo eflúvio.

O ser que é ser transforma tudo em flores...
e para ironizar as próprias dores.
Canta por entre as águas do dilúvio!”

ALPHONSUS GUIMARÃES