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                                                   GRACILIANO RAMOS (1892-1953)

Graciliano Ramos completou seus estudos secundários em Maceió. Estabeleceu-se em Palmeira dos Índios, onde o pai vivia do
comércio. Passou algum tempo no Rio de Janeiro onde trabalhou como revisor na Revista Imprensa. Regressando à Palmeira dos
Índios para tornar-se prefeito da cidade, redige seu primeiro livro, Caetés. Viveu depois em Maceió onde conheceu alguns escritores
do grupo regionalista: José Lins, Jorge Amado, Raquel de Queirós. Nessa época redige S. Bernardo e Angústia. Envolvendo-se em
política, é preso e acusado de comunista.

Embora sem provas de acusação, passou algum tempo na prisão. Muda-se para o Rio de Janeiro, onde passa a escrever sua obra.
Em 1945 ingressa no Partido Comunista e empreende uma viagem aos países socialistas, narrada no livro
Viagem.

(Cena do filme "Vidas Secas" de Nelson Pereira dos Santos, baseado no romance de Graciliano Ramos).

Graciliano Ramos é, sem dúvida, o mais importante escritor da década de 30. Sua obra se destaca das demais produções da época:
supera o regionalismo documental de J. L. Rego e J. Amado e se aprofunda na investigação da existência humana. Suas personagens
não são meras representantes da sociedade local, mas configuram simbolicamente a consciência problemática do homem contemporâneo.
Tanto Paulo Honório ( personagem de
São Bernardo), quanto Luís da Silva (de Angústia) são o que se chama de “herói problemático”,
em conflito com o meio e consigo mesmos, em luta constante para adaptar-se e sobreviver, insatisfeitos e irrealizados.

Manipulando o foco narrativo em 1ª pessoa, G. Ramos desenvolve nestas duas obras romances ao mesmo tempo psicológicos (pela
revelação da consciência problemática) e sociais (pela análise das relações humanas). Até em Vidas Secas, seu romance mais
propriamente regional, G. Ramos soube criar personagens de grande profundidade psicológica: Sinhá Vitória, Fabiano, Os Dois Meninos
e a Cachorra Baleia, representam este mesmo conflito básico de todos os personagens. Seu estilo é denso, descarnado, seco, desprovido
de adjetivos, despojado. Ao contrário da maioria dos modernistas, sua sintaxe é clássica, tradicional, sem os “experimentalismos” tão
comuns na época.

OBRAS:
 

Em São Bernardo, o tema é o problema agrário do Nordeste. Tudo acontece na fazenda São Bernardo, sendo Paulo Honório e Madalena as
personagens centrais. Paulo, como poderoso senhor de um império econômico da região, está em permanente conflito com tudo e todos, para
manter uma posição superior, com direitos sobre a vida de todos. Madalena, sua esposa, é a consciência dos problemas sociais, da exploração
dos trabalhadores procurando amenizar a ação agressiva e possessiva a que Paulo se habituara para conquistar um lugar ao sol. Daí, além do
conflito sócio econômico, já citado, o conflito psicológico entre o mundo do ter (Paulo) e o mundo do ser (Madalena), resulta no suicídio desta.
Propondo um protagonista extremamente agressivo perante o ambiente social (exploração do trabalho), e perante o ser humano
(tentativa de subordinar também Madalena), Graciliano consegue levar os leitores à consciência e à crítica do mundo.

b) Em Angústia, o tema está relacionado à vida da cidade, na qual Luís da Silva vive de pensão em pensão. O painel humano destas pensõezinhas
de província é mesquinho, de recalque e safadeza, de uma sufocante degradação. O protagonista Luís da Silva, não podendo livrar-se desta situação,
reage pela solidão, pelo isolamento e pela análise da decadência moral de seu ambiente. O arrastar de uma existência assim o leva à náusea total, cuja
única solução, pela qual optou o autor, é o crime e, depois, o suicídio. Embora mais deslocado para a margem de análise psicológica, porém sem prejuízo do social, esta obra é genuinamente existencialista.

c) Na sua prosa autobiográfica (Infância e Memórias do Cárcere) subsiste o mesmo clima de tensão crítica permanente, sendo o escritor o próprio
protagonista em eterno conflito com a realidade social e psicológica do mundo em que vive.

d) Vidas Secas é o relato de várias situações vividas por uma família nômade de sertanejos: Fabiano, Sinhá Vitória, dois meninos, um cachorro,
um papagaio. Entre duas secas, fixa um quadro duro e comovente das condições adversas com que se defronta o camponês nordestino, e sua capacidade
de resistir a elas, mesmo que passivamente.

Fabiano - personagem central - sofre agressividade em todos os níveis: massacrado pela seca, explorado pelos patrões e subjugado pela polícia.
Fabiano e sua família são reduzidos à miséria física, econômica e mental.
 
VIDAS SECAS (fragmento)

“Fabiano também não sabia falar. Às vezes largava nomes arrevesados, por embromação. Via perfeitamente que tudo era besteira. Não podia
arrumar o que tinha no interior. Se pudesse ...Ah! Se pudesse, atacaria os soldados amarelos que espancam as criaturas inofensivas.

Bateu na cabeça, apertou-a. Que faziam aqueles sujeitos acocorados em torno do fogo? Que dizia aquele bêbedo que se esgoelava como um
doido, gastando fôlego à toa? Sentiu vontade de gritar, de anunciar muito alto que eles não prestavam para nada. Ouviu uma voz fina. Alguém
no xadrez das mulheres chorava e arrenegava as pulgas.

Rapariga da vida, certamente, de porta aberta. Essa também não prestava para nada. Fabiano queria berrar para a cidade inteira, afirmar ao doutor Juiz
de Direito, ao delegado, a seu vigário e aos cobradores da prefeitura que ali dentro ninguém prestava para nada. Ele, os homens acocorados, o
bêbedo, a mulher das pulgas, tudo era uma lástima, só servia para aguentar facão. Era o que ele queria dizer.

E havia também aquele fogo-corredor que ia e vinha no espírito dele. Sim, havia aquilo. Como era?

Precisava descansar. Estava com a testa doendo, provavelmente em consequência de uma pancada de cabo de facão. E doía-Ihe a cabeça toda,
parecia-lhe que tinha fogo por dentro, parecia-lhe que tinha nos miolos uma panela fervendo.”

As obras de Graciliano Ramos

Relatorio ao Governador do Estado de Alagoas. 1929
2.° Relatorio ao Sr. Governador Alvaro Paes. 1930
Caetés - romance - Editora Schmidt, 1933; (ganhador do Prêmio Brasil de Literatura);
São Bernardo - romance - Editora Arial, 1934;
Angústia - romance - Editora José Olympio, 1936;
Vidas Secas - romance, - Editora José Olympio, 1938;
A Terra dos Meninos Pelados - contos infanto-juvenis - Editora Globo, 1939;
Brandão Entre o Mar e o Amor - romance - Editora Martins, 1942 - Escrito com Jorge Amado
José Lins do RegoAníbal Machado e Rachel de Queiroz;
Histórias de Alexandre - contos infanto-juvenis - Editora Leitura, 1944;
Dois dedos - coletânea de contos - R.A. Editora, 1945;
 

Infância - memórias - Editora José Olympio, 1945;
Histórias Incompletas - coletânea de contos - Editora Globo, 1946;
Insônia - contos - Editora José Olympio, 1947;
Memórias do Cárcere - memórias - Editora José Olympio, 1953; (obra póstuma)
Viagem - crônicas - Editora José Olympio, 1954; (obra póstuma)
Linhas Tortas - crônicas - Editora Martins, 1962; (obra póstuma)
Viventes das Alagoas - crônicas - Editora Martins, 1962; (obra póstuma)
Alexandre e Outros Heróis - contos infanto-juvenis - Editora Martins, 1962); (obrapóstuma)
Cartas - correspondência - Editora Record, 1980; (obra póstuma)
O Estribo de Prata - literatura infantil - Editora Record, 1984; (obra póstuma)
Cartas de amor à Heloísa - correspondência - Editora Record, 1992; (obra póstuma)
Garranchos - textos inéditos - Editora Record, 2012. (obra póstuma)

                                                     ALCÂNTARA MACHADO (1901-1935)

Embora não tenha participado da Semana de Arte Moderna de 1922, Alcântara Machado foi um dos escritores mais ativos na divulgação e defesa
das ideias modernistas, tendo colaborado nas revistas Terra Roxa e Outras Terras, Revista de Antropofagia e Revista Nova.

autor de Brás, Bexiga e Barra Funda é outra importante figura dessa primeira geração. Nesse livro de contos, Alcântara Machado
retratou a vida dos imigrantes italianos moradores dos bairros populares da cidade de São Paulo. Inovando também a linguagem
ao incorporar a linguagem popular, a simplicidade sintática e os italianismos, ou seja, a incorporação de expressões italianas ao
português, daí a expressão português macarrônico. Veja um exemplo desse português macarrônico no conto

“ A sociedade”, do mesmo livro:
“_ Parlo assim para facilitar. Non é para ofender. Primo o doutor pense bem. E poi
me dê a sua reposta. Domani, dopo domani, na outra semana, quando quiser. Io
resto à sua disposição. Ma pense bem!”

Interessando-se por esses aspectos da vida cotidiana, Alcântara Machado realizava, com seu estilo conciso, pleno de expressões populares, uma
das principais aspirações do Modernismo: representar a nova realidade social e urbana do começo do século XX.
O conto transcrito a seguir, “Gaetaninho”, é um dos seus “episódios de rua” que nos toca profundamente com seu epílogo surpreendente.

Obras

· Contos e novelas Pathé-Baby; Brás, Bexiga e Barra Funda; Laranja da China; Mana Maria; Novelas paulistanas.

GAETANINHO

“- Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford.
O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
- Eh! Gaetaninho! Vem prá dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta.
Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
- Subito!
1
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho.
Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso
de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda
porta adentro.
Êta salame
2 de mestre!
Ali na Rua Oriente
3 a ralé4 quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de
realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como?
Atrás da tia Peronetta que se mudava para o Araçá
5.
Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
 

Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério, noivo dela, de lenço nos olhos. Depois ele. Na boleia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira
e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO. Não. Ficava mais bonito de roupa
marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza, rapaz! Dentro do carro o pai, os
dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha, outro de gravata verde), e o padrinho Seu Salomone.
Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo
admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito.
Queria ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar, mas a tia Filomena com a mania de cantar o Ahi, Mari! todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte
que ele sentiu remorsos. E, para sossego da família alarmada com o agouro, tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, Seu Rubino, que uma vez lhe
deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão
no e lefante
6. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
O jogo na calçada parecia de vida ou morte.
Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
- Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
- Meu pai deu uma vez na cara dele.
- Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
- Assim não jogo mais! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia.
Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
- Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque
7. Ela cobriu o guardião
sardento e foi parar no meio da rua.
- Vá dar tiro no inferno!
- Cala a boca, palestrino!
8
- Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai do Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.
- Sabe o Gaetaninho?
- Que é que tem?
- Amassou o bonde!
Avizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na
boleia de nenhum dos carros do acompanhamento.
Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.”

MODERNISMO 3ª FASE