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JOÃO GUIMARÃES ROSA  (1908 - 1967)

Mineiro de Cordisburgo, aos dez anos ingressou no Colégio Arnaldo, de Belo Horizonte. Formou-se em Medicina, clinicou e foi capitão-médico, o que
lhe permitiu andanças pelo interior do Estado. A partir de 1934, iniciou carreira diplomática no exterior, dedicando-se mais à literatura.

Criando um estilo absolutamente novo na ficção brasileira, estiliza o linguajar sertanejo, recria e inventa palavras, mescla arcaísmos com vocábulos eruditos,
populares e modernos, combinam de maneira original palavras, prefixos e sufixos, constrói uma sintaxe peculiar e explora as possibilidades sonoras da
linguagem, através de aliterações, onomatopéias, hiatos, ecos, homofonias, etc.

No cerne dessa linguagem nova, na qual prosa e poesia se confundem, estão as indagações universais do homem: o sentido da vida e da morte, a existência
ou não de Deus e do diabo, o significado do amor, do ódio, da ambição, etc.

Assim como outros autores, Guimarães utiliza a relação do homem com a paisagem árida do sertão mineiro como matéria prima de seus textos.

Entretanto seu regionalismo apresenta um novo significado extrapola os limites da realidade brasileira, atingindo o plano universal. Como dizia o próprio autor,
“o sertão é o mundo”. Tanto que podemos interpretá-lo de várias maneiras: como realidade geográfica, social, política e até mesmo numa dimensão metafísica.


Outra característica fundamental de Guimarães Rosa é o seu poder inovador, sua habilidade em trabalhar e inventar palavras. Seus textos são repletos de
neologismos (neo= novo, logismo vem de logos que significa palavra), ou seja, neologismos são palavras novas. Dizem que Guimarães sempre andava
com um caderninho no bolso anotando palavras e expressões características do falar do povo brasileiro e a partir delas criava outras tantas.


Veja alguns exemplos de seus famosos neologismos:
“desafogaréu” – “cigarrando” – “justinhamente”
“êssezinho” – “ossoso” – “retrovão”
“agarrante” – “bisbrisa” – “desfalar”


Outra característica é o seu poder de fusão dos gêneros literários. Guimarães Rosa não ficou preso a um único gênero. Segundo a crítica literária, ele e
Clarice Lispector conseguiram
desromancizar o romance, aproximando-o da poesia.

Veja o que o próprio autor diz sobre a sua obra:

“ Não, não sou romancista; sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos
de romances são na realidade contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade.
Sei que daí pode facilmente nascer um filho ilegítimo, mas justamente o autor deve ter
um aparelho de controle: sua cabeça. Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de
controle: o idioma português, tal como usamos no Brasil; entretanto, no fundo,
enquanto vou escrevendo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus
livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me
submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada
filologia, ciência lingüística, foram inventadas pelos inimigos da poesia”.                              
(Guimarães Rosa)

Foi um grande estudioso, principalmente de línguas. Alguns estudiosos de sua obra afirmam que ele aprendeu sozinho o russo e o alemão.
Essa paixão por línguas se reflete em quase todos os seus textos. Ele faleceu três dias depois de ter tomado posse na Academia Brasileira
de Letras.

Características

Regionalismo universalizante: sua obra versa basicamente sobre os tipos, costumes e a geografia do interior mineiro, mas, ao mesmo tempo, analisa
temas universais, como o
bem e o mal, Deus e o diabo, o positivo e o negativo etc.

Recriação da linguagem: a partir da pesquisa da fala do sertão, de sua musicalidade, utilizou vocábulos arcaicos e neologismos, criando onomatopéias
 e aliterações.


Irracionalismo: com Grande Sertão: Veredas, adotou uma linha de baralhamento dos tempos e lugares.

Tamanha é a importância de Guimarães Rosa em nossa literatura, que muitos estudiosos afirmam ser ele a única novidade depois de Machado de Assis e
que, depois dele, nada de novo teria surgido em nossas letras. Sua leitura requer grande esforço do leitor, ao menos no início, até familiarizar-se com seu
estilo. Depois, é comum vê-lo entrar para a lista dos aficcionados do autor...

Exemplo

Buriti

Então, o xororó pia subindo uma escadinha — quer sentir, o seu do sol. Mas o que demora para vir, o que não vem, é mesmo
esse fim da noite, a aurora rosiclara. Onde agora, é o miolomaior, trevas. Horas almas. A coruja, cuca. O silêncio se desespumava.
A coruja conclui. Meu corpo tremeu mas só do tremor que ainda é das folhagens e águas. Para ouvir o do chão, a coruja entorta a
cabeça, abaixando um ouvido despido. Ela ouve as direções. A jararaca-verde sobe em árvore.

Ih... Oúù, o úù, enchemenche, aventesmas... O vento úa, morrentamente, avuve, é uma oada — ele igreja as árvores. A
noite é cheia de imundícies. A coruja desfecha olhos. Agadanha com possança. E õe e rõe, ucrú, de ío a úo, virge-minha, tiritim:
eh, bicho não tem gibeira... Avougo. O oão-oão, e psiuzinho.

Assim: tisque, tisque... Ponta de luar, pecador. O urutau, em veludo. l-éé... léé... leu... Treita do crespo de outro bicho, de
unhar e roer, no escalavro. Nos tris-e-tris, a minguável...
                                                                                                                     (Corpo de Baile)

Comentário

Nota-se aí a radical contestação do autor à linguagem convencional, criando uma linguagem dentro da linguagem. Sua revolução
envolve o nível semântico (do significado), o sintático (combinação) e o fonológico (som). Tudo isso se deve principalmente ao fato de
o autor reproduzir o que falam os jagunços, os caipiras do sertão mineiro, que lhe relatam as histórias e que ele registra.

 

Grande Sertão: Veredas

É o único romance do autor e considerado sua obra-prima.

Narrado em 1ª pessoa pelo ex-jagunço do norte de Minas,
Riobaldo, agora um pacato fazendeiro, vivendo de rezas e de conversas com os passantes.
Para um desses passantes, um “doutor” de jipe, Riobaldo conta a vida passada, cheia de aventuras pelo interior de Minas e da Bahia. Desfilam
personagens como
Diadorim, um jagunço-mulher por quem se apaixonara; um jagunço-demônio, Hermógenes, o Coronel Joca Ramiro, entre
outros. Ressaltam-se na narrativa angústias do narrador que podem ser interpretadas como indagações existenciais de todos
os homens, como a existência ou não do demônio, entre outras.
Sagarana

Um conjunto de contos cujo título central foi inventado pelo próprio autor. Provém de saga, palavra escandinava que significa lenda, e rana”, vocábulo
indígena que quer dizer:
espécie de. Todas as histórias de Sagarana encerram uma feição alegórica, isto é, contêm um segundo sentido para além do
simples desenrolar dos fatos.

Obras

1936: Magma
1946: 
Sagarana
1947: 
Com o Vaqueiro Mariano
1956: 
Corpo de BaileNoites do Sertão
1956: 
Grande Sertão: Veredas
1962: 
Primeiras Estórias
1964: 
Campo Geral
1967: 
Tutaméia – Terceiras Estórias
1969: 
Estas Estórias (póstumo)
1970: 
Ave, Palavra (póstumo)
2011: 
Antes das Primeiras Estórias (póstumo)

 

JOÃO CABRAL DE MELO NETO