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                                        JOÃO CABRAL DE MELO NETO (1920 - 1999)

Nascido no Recife, passou a infância e juventude em estreito contato com os engenhos, para cujos trabalhadores costumava
ler romances de cordel . A o s 22 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou na carreira diplomática. Serviu
em diversos países europeus e sul-americanos, principalmente. Aposentado, passou a  viver no Brasil

Embora frequentemente estudado como um poeta da geração de 45, João Cabral de Melo Neto apresenta características
bem diversas dos escritores dessa fase. Guiado pelo raciocínio lógico, voltou-se para a concretude, para a análise objetiva da
realidade.
João Cabral de Melo apresentava uma grande preocupação com a construção formal de seus textos, procurando eliminar tudo o
que fosse supérfluo.

Caracterizou-se pela linguagem direta e precisa, contrária ao subjetivismo.

Para ele os poemas não eram fruto de inspiração, mas de construção. Daí ser conhecido como o “engenheiro das palavras”.
João Cabral de Melo Neto conquistou notoriedade internacional graças ao longo poema
Morte e Vida Severina – um auto
de natal pernambucano
, que em 1969, foi encenado por um grupo de jovens atores do TUCA, Teatro da Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo. Morte e Vida Severina narra a história de um retirante pernambucano que deixa sua terra castiga pela seca e
parte em busca de uma vida melhor, mas ao longo de suas andanças só encontra a fome, a miséria e a morte.

Segundo Eduardo Portella, João Cabral de Melo Neto constitui um verdadeiro caso à parte na literatura brasileira, inclusive, sendo em
relação à lírica anterior, um antipoeta porque não há uma só emoção que não venha pensada, uma só palavra que não chegue a um
conceito, uma só música, sem a exatidão e a nudez do único som necessário.

Portanto, um poeta que rompeu o sentimentalismo, a melodia fácil, a poesia de inspiração. Seus versos são despojados, ásperos,
rudes, trabalhados rigorosamente.

Características

Temas


Três podem ser considerados os temas básicos de João Cabral:

O Nordeste, a arte e a Espanha, país que o marcou profundamente. Do Nordeste, predominam as preocupações sociais, variando desde o estilo de “literatura de
cordel”, de
Morte e Vida Severina, até a concisão e o prosaísmo de Cão sem Plumas. A arte ou a meta poesia é uma indagação
freqüente do poeta, como se vê a partir de
O Engenheiro (1945) e Psicologia da Composição (1947).

O Engenheiro
(rompimento com a visão surrealista do primeiro momento e busca do racionalismo)

"A luz, o sol, o ar livre
envolvem o sonho do engenheiro.
O engenheiro sonha coisas claras:
superfícies, tênis, um copo de água.
O lápis, o esquadro, o papel;
o desenho, o projeto, o número:
o engenheiro pensa o mundo justo,
mundo que nenhum véu encobre.
(...)"

Psicologia da Composição (rejeição à inspiração e postura objetiva diante da escrita).

             
VII
É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
(...)

A Espanha, com sua arte pura e simples, representada principalmente na arquitetura da península, estará sempre presente
em seus poemas, associando aquela terra ao Nordeste. Comprova-se isso em
Paisagens com Figuras (1956) e Terceira Feira
(1961) entre outros.

 Estilo
Cabral maduro é um poeta de estilo conciso, seco e racional, com a inquietação formal dos barrocos, na opinião de críticos,
porém sem o rebuscamento daqueles autores. Seus versos despojados soam rudes, trabalhados rigorosamente, embora ele
seja mais conhecido e popular pela obra em que esses traços são menos explorados:
Morte e Vida Severina.

Morte e Vida Severina

É a obra mais popular do poeta e também a mais solicitada pelos vestibulares do país. Foi representada pelos palcos do
Brasil em fins da década de 60, musicada por Chico B. de Hollanda e tendo no elenco atores do porte de Paulo Autran. Em
fins de 80, recebeu também uma versão para a televisão, o que atesta sua popularidade. Quanto ao gênero, trata-se de um

poema dramático, recebendo o subtítulo de Auto de Natal Pernambucano. O conteúdo relata-nos a saga de Severino,
um retirante que deixa o sertão em busca de melhor vida, rumo ao litoral.

Pelo caminho só encontra dor e morte, o que o faz tentar o suicídio nas águas barrentas do Capibaribe. É dissuadido por
um mestre carpina, seu José, cujo filho acaba de nascer e anuncia mais uma vez a esperança da vida. Daí o título: “Morte e
Vida Severina” e não o contrário... É interessante observar que o nome próprio Severino também sofre uma derivação, passando a
substantivo comum, designando não mais
um ser, mas os nordestinos todos. O trecho de Morte e Vida Severina, que consta
nesta apostila, refere-se à 1. a cena desse longo poema, em que
Severino se apresenta.


Cão sem Plumas

Para a crítica especializada, essa obra é mais significativa do que Morte e Vida Severina, por atestar melhor seu potencial
literário.


O trecho registrado na antologia poética desta apostila dá uma idéia do poema. Em verdade, o cão é o próprio rio, que está ao
lado do nordestino como um cão doméstico: entra-lhe em casa, vive aos seus pés; é, porém, um cão sem ornamentos, sem pêlos,

sem plumas. Observe como tudo se funde e se confunde: rio, homem, casas, a paisagem toda.

Veja alguns fragmentos da grande obra-prima desse autor:

Morte e vida Severina
O retirante explica ao leitor quem é e a que vai.


_ O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias
(...)
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue

que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
( de fraqueza e de doença
que é a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida )
(...)
João Cabral de Melo Neto

OBRAS

Pedra do Sono (1942)
Os Três Mal-Amados (1943)
O Engenheiro (
1945)
Psicologia da Composição com a Fábula de Anfion e Antiode (
1947)
O Cão sem Plumas (
1950)
Poesia e composição (
1952)
O Rio ou Relação da Viagem que Faz o Capibaribe de Sua Nascente à Cidade doRecife (1954)
Morte e Vida Severina (1955)
Dois Parlamentos (
1960)
Quaderna (1960)
A Educação pela Pedra (1966)
Museu de Tudo (
1975)
A Escola das Facas (
1980)
Auto do Frade (
1984)
Agrestes (
1985)
Crime na Calle Relator (
1987)
Primeiros Poemas (
1990)
Sevilha Andando (1990)
Tecendo a Manhã (
1999)

FERREIRA GULLAR