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JUNQUEIRA FREIRE
(1832 - 1855)

Nasceu em Salvador, BA, em 1832, onde faleceu em 1855, vítima de moléstia cardíaca.

OBRA: Inspirações do claustro (1855, Poesia) e Contradições Poéticas (poesias)

A poesia de Junqueira Freire é totalmente autobiográfica e talvez seja isso o que mantenha o interesse pela mesma. Procurando num
mosteiro a saída para os seus problemas pessoais (sobretudo uma espécie de atração pela morte que o angustiava), o poeta viu
malograrem as suas ilusões. A vida clerical lhe pareceu terrível. A partir dessa experiência, ele escreveu
Inspirações do claustro, cujo
valor reside mais no aspecto documental de uma situação humana do que, propriamente, no seu significado literário.

Sua obra mostra a interessante luta do monge-poeta em busca de equilíbrio espiritual e existencial. Mais blasfemo que religioso, mais
filosófico que crente, mais racional que romântico, seu isolamento aumenta-Ihe a dor. “Daí temas lhe são peculiares: o monge, que ele lastima e a morte
a que ele aspira”.

O ARRANCO DA MORTE

“Pesa-me a vida já. Força de bronze
Os desmaiados braços me pendura.
Ah! já não pode o espírito cansado
Sustentar a matéria.
Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
O noturno crepúsculo caindo
Só não me lembra o escurecido bosque,
Onde me espera, a meditar prazeres,
A bela que eu amava.
A meia-noite já não traz-me em sonhos
As formas dela - desejosa e lânguida -
Ao pé do leito, recostada em cheio
Sobre meus braços ávidos.
A cada instante o coração vencido
Diminui um palpite; o sangue, o sangue,
Que nas artérias férvido corria,
Arroxa-se e congela.
Ah! é chegada a minha hora extrema!
Vai meu corpo dissolver-se em cinza;
Já não podia sustentar mais tempo
O espírito tão puro.
É uma cena inteiramente nova.
Como será? - Como um prazer tão belo,
Estranho e peregrino, e raro e doce,
Vem assaltar-me todo!
E pelos imos ossos me refoge
Não sei que fio elétrico. Eis! sou livre!
O corpo que foi meu! que todo impuro!
Caiu, uniu-se à terra.”

 

 

MORTE}

(Hora de delírio)
“Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o termo
De dois fantasmas que a existência formam,
- Dessa alma vã e desse corpo enfermo.


Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és o nada,
Tu és ausência das moções da vida,
Do prazer que nos custa a dor passada.

Pensamento gentil de paz eterna,
Amiga morte, vem. Tu és apenas
A visão mais real das que nos cercam,
Que nos extingues as visões terrenas.

Nunca temi tua destra,
Não sou o vulgo profano:
Nunca pensei que teu braço
Brande um punhal sobr’humano.

Nunca julguei-te em meus sonhos
Um esqueleto mirrado;
Nunca dei-te, pra voares,
Terrível ginete alado.


Nunca te dei uma foice
Dura, fina e recurvada;
Nunca chamei-te inimiga,
Ímpia, cruel, ou culpada.

Amei-te sempre: - e pertencer-te quero
Para sempre também, amiga morte.
Quero o chão, quero a terra, - esse elemento
Que não se sente dos vaivéns da sorte.

                                                                                                                                         TERCEIRA GERAÇÃO